O Que Ensinam as Escolas - Parte 2"O homem culto normalmente conhece muito da vida de muitos, o inteligente conhece muito de si mesmo...” |
|
Descobrir qual é sua verdadeira vocação, este deveria ser o primeiro e mais importante quesito na vida de um educando, e deveria ser a principal diretriz na pauta de uma escola. Na vida bem poucos possuem o privilégio de conhecer sua vocação, aquele tipo de habilidade pessoal que facultará o individuo, a realizar seu trabalho, qualquer que seja; todos os dias como se fosse o primeiro de uma espetacular descoberta, sem jamais reclamar de cansaço, independente de obter ou não lucro; de uma forma sempre criativa e plena. Franqueza com respeito e consideração, deveria ser um item dos mais importantes na educação dos mais jovens. Respeito onde não há sinceridade não é possível. Assim, num mundo onde a hipocrisia se tornou uma verdadeira arte, uma instituição sofisticada, o respeito para com os semelhantes, com os mais velhos, com os grupos minoritários, com os socialmente menos favorecidos ou segregados, torna-se uma necessidade, e deveria ser amplamente discutido, e mesmo fazer parte dos debates, da ordem do dia de uma escola. Muitos dos nossos conflitos pessoais poderiam ser evitados, se desde cedo fossemos conscientizados, que cada ser tem um ponto de vista pessoal, uma opinião que deve, portanto, ser respeitada. Poderíamos fazer isso, ensinando o jovem perceber, que assim como ele tem suas preferências, outros também o tem, e que isso não constitui um motivo para antagonismos que conduzam ao separatismo, ao desentendimento. Que é algo natural, e se aprendemos a ouvir a outros sem resistência, outros também nos ouvirão sem conflitos ou sentimento de disputa. Mas, na escola, a primeira coisa que aprendemos é a competir. Estamos ali para aprender, mas não para aprender sobre a vida, sobre o modo correto de enfrentar problemas. Somos lá colocados para aprender, normalmente sobre coisas que pouco ou nada tem a ver conosco, ou com a vida. Somos orientados a seguir esquemas, e o estudo torna-se uma disciplina obrigatória. Somos então obrigados a cumprir essa disciplina, somos obrigados a estudar matérias que odiamos, somos obrigados a competir para não sermos mal vistos, para não nos sentirmos inferiores ou fracos, desprezados, excluídos ou pouco importantes. Logo que aprendemos a ler, somos comparados com outros, e a idade na qual efetuamos nossa primeira leitura, torna-se um marco e objeto de disputa entre nossos amigos, e amigas; entre nossos pais e outros pais, entre professores. Logo todas nossas habilidades pessoais também se tornarão objetos comparativos, são situações das quais sairemos, com nosso consentimento ou não, perdedores ou vencedores, mais ou menos arrogantes, vaidosos ou humilhados. Nossos pais, quase sempre preocupados que estão com eles mesmos, eventualmente se voltam para nós, nos dando um pouco de sua atenção, mas normalmente é algo tão breve que sequer temos tempo de contar-lhes alguma coisa, algo do nosso dia-a-dia; talvez porque a rotina diária de uma criança, não seja tão importante quanto as horas de debate esportivo, ou noticiários inúteis que ele assiste diariamente, onde dedica muita atenção às opiniões de estranhos, que nada lhe dizem respeito. Noutras partes dos seus tempos livres, se debruçam sobre a vida alheia, bisbilhotando a intimidade dos ricos e famosos. Não sabem os pais quem são seus filhos, mas sobre os filhos dos ricos e estranhos, sabem até o que pensam. Aprender sobre seus limites, sobre a cortesia e a consideração, como fatores necessários para uma diferente postura da sociedade, esta deveria ser uma das matérias de maior ênfase dentro da didática escolar. Mas, a prática da cordialidade não se consegue através de decretos, e sim quando existe respeito entre educador e educando. Pais e educadores, não deveriam se preocupar em cultivar uma postura em casa para servir de modelo para seus filhos, pois cedo ou tarde serão descobertos em sua verdadeira natureza.
Deveria ser a ordem do dia, fazer os jovens compreenderem que ser disciplinado, não é o simples fato de seguirem cegamente regras, e sim uma condição natural daqueles que por vontade própria, desejam trilhar um caminho em direção a algum tipo de realização pessoal. Disciplina não é obrigação seguida de méritos ou punições, e sim algo espontâneo quando se estuda ou se aprende uma profissão por interesse vocacional. A natureza dotou a todos, a não ser aqueles acometidos de graves deficiências físicas, da igual capacidade do viver pleno. Mas, se isso ainda não é possível é um problema exclusivamente humano. Seu modo de vida, suas complexas relações sociais e culturais, seus intermináveis conflitos pessoais, é que são os verdadeiros causadores desse viver sempre incompleto. Numa condição onde o peso da tradição determina nosso modo de vida, o homem está mais preocupado e direciona todos seus esforços, no dar continuidade a essa tradição. São os aspectos externos do ser sempre em primeiro plano. Sendo o sofrimento humano um só, a manifestar-se de diferentes modos, conforme cada indivíduo, não seria sensato começar a entender o meu próprio, para depois compreender o alheio? Afinal, ninguém está mais capacitado que eu mesmo, para descobrir tudo aquilo que me faz sofrer; é muito simples, basta pensar no porque sofro. Toda criança deveria ter uma educação de base, não nos referimos ao padrão instituído pelos ciclos da chamada idade escolar obrigatória; isso nos moldes atuais, pouco valor tem, pois se trata apenas de um modelo de negócio como outro qualquer, voltado para o lucro corporativo. Nesse negócio, ao indivíduo, como um ser humano carente de uma orientação psicológica que o prepare para a vida, pouco é dado. Representa ele na verdade apenas um número, um valor mensal, dentre aqueles que ajudam a manter tais conglomerados comerciais em atividade. Por educação de base, entendemos aquela, onde o indivíduo aprende através do exemplo, exemplo sem indução ou imposição de qualquer tipo de autoridade. Aprende sobre boa conduta e respeito observando isso nos pais e mais próximos. São os pais e parentes afins, através de atos inconscientes criando seus primeiros alicerces éticos. Pouco ou nenhum valor tem palavras, por mais elaboradas, ou eloqüente que seja seu articulador, pois logo se tornam vazias quando não seguidas da ação apropriada, antes disso, acabam por se tornar objetos de revolta daqueles que isso presenciam. A escola não deveria prescindir do papel de educadora consciente dos seus alunos. Ao invés de educar conforme o padrão cujo resultado é o mundo de disparidades no qual atualmente vivemos, onde um ser humano irracional e pouco sensível é criado a cada novo dia, deveria deixar de lado o aspecto impessoal próprio de instituições que nunca estão diante de indivíduos, e sim de consumidores sem alternativas de outro tipo de consumo, e voltarem-se elas próprias para o indivíduo. Que tal indivíduo seja ainda um consumidor, mas um consumidor que tem sentimentos humanos, que precisa de ajuda para resolver seus conflitos, que precisa mais do que nunca de orientação para aprender a lidar com seu eterno sofrimento, e não ser um mero multiplicador de problemas. Deveria a escola ter o cuidado de acompanhar o progresso psicológico de cada um dos seus clientes, que também são seus alunos, cuidando de sua saúde, do mesmo modo que uma empresa cuida dos seus funcionários mais preciosos e necessários à sua sobrevivência. Não deveriam as corporações zelar pelo bem estar dos seus clientes? Nas escolas públicas é a mesma coisa, pois somos clientes dos governos, que afinal de contas recebem da sociedade recursos para zelar pelo nosso bem estar. Ao invés disso, torna-se o homem uma máquina impessoal de repetir velhos padrões comportamentais, que apenas o empurram cada vez mais, para o abismo sem fim dos conflitos humanos. Cria-se o homem ambicioso, programado para vencer na vida a qualquer custo, não orientado a perder, um monstro insensível que trata seu semelhante como um inimigo natural. Enxerga no semelhante apenas mais um competidor que deseja tirar o mérito que lhe pertence. Esse homem nunca está preparado para os eventuais fracassos da vida, e tenderá a culpar quem quer que seja pelas suas desilusões; viverá em conflito eterno consigo e com suas relações. Por que uma criança não pode ficar triste e aprender ela própria sobre sua tristeza? Por que como pais, logo cuidamos de sufocar com distrações e agrados de toda espécie tal sentimento, quando acometem nossos filhos? Não seria coerente que, ao conhecer a verdade sobre a natureza do homem, meus filhos estariam mais dispostos a respeitar às fraquezas alheias, e respeitar porque compreendem as angústias do mundo, através do próprio sofrimento? Ao invés disso, alegamos um suposto amor e logo cuidamos de poupá-los disso. Como resultado, criamos filhos e alunos insensíveis à dor alheia, uma vez que eles próprios desconhecem tal fato. Mais tarde estes jovens se sentirão naturalmente traídos por pais e professores, por terem escondido deles a miséria do mundo. Serão pegos de surpresa, pois jamais terão tido tempo de se prepararem para uma coisa que simplesmente desconheciam. É como a falta de orientação no sexo, onde a coisa sem controle tende a se tornar com o tempo algo sem graça, que logo o jovem para compensar, tenta preencher com novas emoções, ou mesmo as drogas. Criança não é um adulto jovem, assim como um adolescente não é um idoso jovem; são indivíduos que estão sendo apresentados ao mundo, e a depender da maneira como é feita esta apresentação, teremos um cidadão consciente e preocupado em construir um modelo de vida mais justa, ou um revoltado e pronto para degradar e acentuar ainda mais os conflitos humanos. Como vamos apresentar o mundo para nossos filhos, exibindo uma mentira onde apenas a fantasia predomina? Não seria mais justo que para eles fosse explicado porque existe tanta degradação no homem; porque fizemos desse mundo maravilhoso algo tão feio e cruel, onde o simples viver se torna um verdadeiro martírio? Confiança, auto-estima, humildade, são atributos do homem que respeita seu próximo por reconhecer nele um ser humano, que como ele, sofre, sente fome e dor. Torna-se desse modo, um adulto naturalmente respeitador do seu próximo, ciente dos limites e carências do homem, preocupado em reformar seu mundo, sabendo que ao fazê-lo, também irá beneficiar os demais homens. Assim agirá, pois percebeu que despidos da condição social, das opiniões que os diferenciam e separam as famílias, das religiões que os tornam adversários, da violência que irracionalmente faz parte de suas naturezas, todos são exatamente iguais. Diz-se que um mestre passava os dias, a observar um discípulo franzino, que mal tinha forças para erguer suas roupas, e que depois de lavadas, precisavam ser estendidas no varal que era mais alto que ele, apesar do banquinho posto do seu lado, no qual poderia subir para tornar mais fácil sua tarefa. Curioso se aproxima do pequeno e lhe pergunta: “Meu filho, porque você não usa o banquinho para facilitar seu trabalho?”. Ao que o jovem, responde: “Senhor, isso não é problema para mim, gosto de esticar meus braços até não poder mais! Pois veja, depois de refletir, a que interessante conclusão cheguei: Quando for adulto, terei compreendido de fato, e saberei com toda clareza, como se sente alguém do meu tamanho ao estender roupas num varal muito alto”.
Autora: Ester Cartago |