O Que ensinam as Escolas - Parte 3"Se todos nossos objetivos mudam conforme as várias influências das circunstâncias, então é preciso que fiquemos atentos, pois eles podem não servir para nós...” |
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Podemos comparar as escolas às fábricas de produção em série. As máquinas de uma linha de montagem já sabem exatamente o que devem fazer, pois foram programadas mecanicamente para desempenhar certas funções. Há toda uma metodologia, esquemas e gabaritos que devem seguir para que sejam capazes de realizar a contento, a função para a qual foram projetadas. Assim, uma dessas máquinas sabe exatamente o que deve fazer, quando o objeto que será montado é colocado diante dela. Ela sabe que deve acrescentar-lhe alguma coisa, pode ser um simples parafuso, e a mesma coisa farão as outras máquinas, cada uma acrescentando uma coisa, até que o objeto fique pronto. O conceito é simples, várias máquinas posicionadas, uma ao lado da outra, recebem o mesmo objeto e sempre lhe adicionam algo, até que o item esteja completo. Então, já pronto, será embalado e despachado para comercialização. Escola e professor não precisam ter a preocupação de saber o que farão os alunos depois de formados, afinal sua missão já foi cumprida, já desempenharam seus papéis conforme o combinado; já cumpriram o que estava no contrato, e para isso receberam seus honorários. Depois de formados, alguns alunos poderão até ter sucesso em sua carreira, outros certamente que ainda terão que penar muito em busca de colocação profissional, de qualificações complementares, das oportunidades que conseguem ver com o conhecimento adquirido, mas não há garantia alguma de que terão êxito, ou se conseguirão ser alguém na vida. Vão embora estes alunos, outros certamente virão, e o ciclo se repetirá, se terão sucesso ou não, não parece ser problema da escola ou do seu corpo docente. Existindo alunos, escola e professor terão sua fonte de sustento assegurado. O papel da escola é, e sempre será o de preparar indivíduos para o mercado de trabalho, de ensinar-lhes técnicas que os possibilite exercer uma profissão qualquer no futuro. Que cargos deverão exercer é um problema de cada um, não da escola, e se não é da escola, do professor muito menos será, já que este simplesmente cumpre as normas estabelecidas pela instituição que o emprega, e na maioria das vezes cumpre a contento ou já estaria desempregado. A escola não faz muito por seus alunos, e aparentemente ganham o tempo necessário, para que todos naturalmente amadureçam e decidam por si só, o que devem fazer de suas vidas. Nesse meio tempo, lhes ensinam as técnicas necessárias para que, ao prestarem exames, possam ingressar nas turmas mais adiantadas, e lá a coisa se repete. É um sistema que se propõe apenas a manter o jovem ocupado boa parte do seu tempo para evitar a ociosidade. Assim, sobre a vida pouco ou quase nada lhes ensinam. Aprendem a competir entre si em busca das melhores notas, aprendem a serem ambiciosos, aprendem que para conseguirem seus objetivos, terão que disputar com seus amigos já que não há espaço para todos. Uma escola que economicamente é um sucesso no meio empresarial, com suas salas repletas de alunos, e pelo tamanho e poder se torna próspera, via de regra, é um fracasso como centro de educação. Terá a seu favor, com toda encenação que caracteriza uma publicidade de peso, a capacidade de produzir eficientes técnicos e engenheiros; funcionários capazes de exercer as profissões que o mercado exige. Na verdade, agirão como máquinas programadas para ocupar os cargos criados para fazer andar o mecanismo social. Serão indivíduos vazios por dentro, angustiados e perseguidos por temores existenciais cada vez mais profundos, que dificilmente aprenderão a solucionar. compreender as coisas não significa deformá-las, mas antes disso, significa que o jovem, sensatamente esclarecido sobre seu mundo, poderá escolher o melhor caminho para si mesmo. Mas quantos pais se preocupam com a verdadeira formação dos seus filhos? Afinal de contas, para um pai o que significa educar um filho? Significa preparar ele para o mercado de trabalho, ou para enfrentar a vida como um todo? Saberá um pai o que significa a vida como um todo? Uma escola onde centenas de alunos recebem o conhecimento de que necessitam para serem capazes de conseguir um emprego ou passar num concurso público, não parece muito preocupada em saber o que aquele jovem tem como lastro para enfrentar a vida real lá fora, a vida que nada tem a ver com as simulações e faz de contas de salas de aula, a vida onde todos sofrem diante das dificuldades. Como este jovem vê seu suposto futuro, e se prepara para sair às ruas em busca de um espaço para si, isto não parece ser da conta das escolas ou dos pais. Um pai, olhando para si mesmo e para seu passado, ponderando erros e acertos, refletindo sobre seus conflitos e angústias pessoais, vendo com franqueza o modelo de mundo cruel que ele ajudou a criar, desejaria de bom senso isso também para seu filho? Se não deseja, por que não se opõe, porque simplesmente se aquieta em seu emprego ou condição social, e aceita a perpetuação de tamanha insensatez? Será para ele a realização de um filho, um estável emprego onde o mesmo irá passar os próximos quarenta ou cinqüenta anos de sua vida, preso oito ou mais horas por dia, até que possa se aposentar frustrado por não ter vivido? Mas é exatamente para isso que as escolas preparam nossos filhos. Temos um discurso ético bastante contraditório, e diante de nossos amigos ou interesses, somos o mais puro exemplo da virtude, sempre dispostos a consertar tudo que não presta nesse mundo, sempre dispostos a ajudar os mais carentes. Mas e em nossa casa, somos também assim, tão presentes, tolerantes e benevolentes? Preocupamos-nos em acumular coisas, como se a posse dessas coisas fosse a garantia de nossa felicidade, e dos nossos herdeiros. Sequer paramos para olhar o exemplo alheio, onde poder e heranças materiais nunca puderam garantir a existência de um homem íntegro. Sempre temerosos do futuro, com receio de não conseguir todas as coisas que desejamos; angustiados pelo medo da doença e da morte, a verdade é que nunca aprendemos a conviver corretamente com nossas angústias e conflitos, e isso que nunca conseguimos resolver será a herança que, de fato, iremos deixar para nossos filhos. Como podemos esperar reformas significativas de alguém que foi condicionado para ter medo de contestar, que foi educado para ter medo da incerteza? Alguém que por temor prefere se ajustar a um padrão de vida desumano, onde é normal tratar com indiferença, aqueles que não pertencem ao nosso círculo de interesses? Não é assim que normalmente tratamos quem não pertence ao nosso círculo de relações? Assim fomos ensinados e assim ensinamos. Repetimos palavras, na maioria das vezes, sem ao menos compreendermos o que realmente significam. E a palavra se torna a coisa, vazia e sem valor algum, pois apenas representa um vocábulo, sem vida, sem a ação própria que seu conteúdo na prática sugere. As escolas se tornam então fábricas de produção em série, de alunos programados para repetirem aquilo que lhes mandam repetir. Serão então condicionados pelos padrões que determinam os meios controladores de suas vontades. E estes meios dirão, do que devem gostar; dirão quando deverão deixar de gostar daquilo, cuidarão de suas necessidades, tornando a acomodação e conformismo algo desejável. Formarão indivíduos sem vontade própria, inflexíveis por não serem capazes de questionar nada. Serão indivíduos dotados de mentes cristalizadas e movidos pelo pensamento da maioria; uma maioria que como eles foi programada para agir na direção que o meio dominante de suas vontades, determina. Mas todos terão objetivos de vida para serem alcançados; serão convencidos de que tais metas são necessárias à realização do homem, e nunca questionarão se o é, porque depois de tantas gerações dessa prática, ainda não realizou este mesmo homem. Nascerá assim um individuo que no fundo sabe ser vazio; angustiado por não ver sentido na vida além de consumir, que sofrerá por não conseguir atingir os padrões de consumo que o mundo definiu como modelo para sua felicidade. Logo se verá impossibilidade de agradar a si mesmo, e as portas para o desânimo estarão abertas.
Autora: Ester Cartago |